Meu Primeiro Caso Como Advogado: O Dia Que Tudo Mudou
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O Nervosismo Antes
Meu primeiro cliente chegou logo depois que passei na OAB. Uma questão constitucional, naturalmente — alguém que precisava de representação legal em uma questão que envolvia direitos fundamentais.
Passei semanas preparando. Pesquisei tudo — jurisprudência, decisões anteriores, todos os casos parecidos. Preparei argumentos. Preparei respostas para possíveis contra-argumentos.
Meu português tinha melhorado muito, mas aí estava a realidade: você pode ser fluente em português de todos os dias, mas português de tribunal é diferente. É formal. É preciso. Tem termos que você aprende na faculdade mas só usa em context muito específico.
Nervoso? Eu era um nó de nervos.
A noite antes de ir ao tribunal, coloquei meu terno de advogado. Era novo. Preto. Gravata azul. Parecia que estava me vestindo para guerra — porque, de alguma forma, era.
Minha esposa me viu assim e riu. “Você vai ficar bem,” disse-me. “Você estudou para isso.”
Mas você nunca está realmente pronto para seu primeiro tribunal.
O Tribunal
O prédio do tribunal em São Paulo é velho. Sem ar condicionado em muitos lugares. Abafado. Caótico em uma forma organizada — há advogados em pé em cada canto, em conversa com clientes, revisando documentos em última hora.
Entrei e senti o peso. Este era um lugar onde as coisas importantes aconteciam. Onde pessoas ganhavam e perdiam seus casos. Onde a lei era prática, não teórica.
Encontrei meu cliente. Ele estava nervoso também. “Você tem certeza de que sabe o que está fazendo?” perguntou com humor tenso.
“Não completamente,” respondi honestamente. “Mas conheço a lei, e conheço seu caso. Vamos conseguir.”
Eu estava tremendo.
Esperando
Havia outras pessoas esperando. Dúzias delas. Todos em pé, segurando pastas. Todos esperando sua chance de entrar em uma sala com um juiz e apresentar seu caso.
Fila de tribunal brasileira não é como uma fila normal. Você fica perto de colegas advogados. Você conversa. Ocasionalmente alguém sabe alguém. “Oi João! Quanto tempo!” é comum ouvir.
É também um networking silencioso. Você observa outros advogados. Como falam. Como se comportam. Você aprende vendo.
Um advogado veterano notou que era meu primeiro caso. Como sabe? Talvez fosse meu sotaque. Talvez fosse meu nervosismo óbvio.
“Primeiro caso?” perguntou.
“Sim,” respondi.
“Não pense demais. O juiz já leu tudo. Você vai apresentar seu argumento. Provavelmente vai durar dois minutos. Você responde qualquer pergunta, mantém a calma, deixa. O resto a lei toma conta.”
Foi sábio conselho do nada.
Dentro da Sala
Finalmente, chamaram meu número. Entrei. Meu cliente ao meu lado. Um advogado do outro lado — que representava a parte contrária.
O juiz era uma mulher, com óculos, que parecia que tinha visto tudo mil vezes.
Apresentei meu caso. Minha voz soava estranha para mim mesmo — formal demais, nervosa, com sotaque americano ecoando. Mas as palavras saíram. Os argumentos saíram. Falei sobre direito constitucional, sobre princípios, sobre por que meu cliente tinha razão.
Dois minutos. Três minutos. Quatro minutos.
Depois o juiz perguntou algo. Uma pergunta técnica. Não era uma pergunta agressiva — era uma pergunta de clarificação.
Respondi. Meu português era perfeito naquele momento? Não. Mas era claro. Era compreensível.
E então, de repente, acabou.
O Resultado Inesperado
O advogado da outra parte então foi falar. Tentou contra-argumentar.
Mas aqui estava a coisa: a outra parte não apareceu. Seu cliente não estava em tribunal.
Quando a outra parte não comparece em tribunal, você vence por padrão. É automático. Todos aqueles meses de preparação, todos aqueles argumentos cuidadosamente construídos, toda aquela ansiedade — não importou porque o outro lado não sequer apareceu.
O juiz disse algo como “Visto que a parte contrária não compareceu, o tribunal decide a favor do demandante.”
Ganhei meu primeiro caso.
Mas não foi como eu esperava.
A Lição Aprendida
Saindo do tribunal, meu cliente me abraçou. “Obrigado! Sabei que você conseguiria!”
Mas eu estava em uma emoção estranha. Ganhei, sim. Mas não por meu brilho argumentativo. Não por meu português impecável. Ganhei porque o outro lado não apareceu.
Aquela noite, falei com meu mentor Sergio. Ele riu quando soube do resultado.
“Bem-vindo à prática de direito,” disse-me. “Você vê? Tudo que você aprendeu em aula é teoria. Na vida real, é sobre relacionamentos, sobre quem conhece quem, sobre aparecer.”
E ele estava certo.
Na aula, aprendi teoria. Sobre argumentos. Sobre lógica jurídica. Sobre como construir um caso.
Mas na vida real, descobri que direito é muito sobre as pessoas. É sobre aparecer. É sobre conhecer o sistema. É sobre entender que às vezes o juiz não quer ouvir seu argumento brilhante — quer uma apresentação clara, respeitosa, e concisa.
É sobre entender como os juízes realmente pensam — não baseado em como pensam nos livros de direito, mas em padrões de decisão do juiz específico.
O Que Aquilo Me Ensinou
Meu primeiro caso não foi teatral. Não foi como a TV mostra. Não havia drama. Não havia momento onde meus argumentos convenceram um juiz relutante.
Mas foi perfeito do jeito que foi.
Porque me ensinou que a prática real de direito é diferente de estudar direito. E essa diferença não é uma falha do sistema — é a realidade de como a lei funciona.
Nos anos que vieram, tive casos muito mais complexos. Tive casos onde realmente precisava do meu melhor argumento constitucional. Tive casos onde passei horas pesquisando jurisprudência e isso fez diferença.
Mas nunca esqueci daquele primeiro caso — quando o outro lado não apareceu, e eu aprendi que às vezes ganhar é sobre estar lá.
Reflexão
Hoje, vejo jovens advogados nervosos em tribunais, e vejo a mim mesmo naquele primeiro dia. Vejo o nervosismo. Vejo o cuidado com a pronúncia. Vejo a determinação.
Quero dizer a eles: você está pronto mais do que pensa. A escola já fez sua parte. A OAB provou que você sabe a lei.
Agora é sobre experiência. Sobre aprender na prática. Sobre entender que direito é vivo — não é um livro. É pessoas, é tribunais, é conexões, é aparecendo.
Se você está começando sua carreira legal no Brasil, ou está navegando o sistema judiciário como cliente, entendo o caminho. ZS Advogados não é só sobre lei — é sobre real-world practice. Sabemos como funciona realmente. Vamos ajudá-lo.
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Este artigo tem carater informativo e nao substitui consulta juridica individualizada. Cada caso possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado.
Zachariah Zagol
Advogado — OAB/SP 351.356
Socio fundador do ZS Advogados. Advogado americano inscrito na OAB/SP (351.356) com LL.M. da USC e mais de 15 anos de experiencia no Brasil.
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