Faculdade de Direito Sem Falar Português: O Primeiro Teste
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A Decisão Que Mudaria Tudo
Três meses depois que pousava em São Paulo, ainda sem dominar o português, com meu sotaque americano ecoando em cada palavra, tive que tomar uma decisão. Qual era meu futuro? Voltaria aos Estados Unidos para a universidade? Ficaria aqui?
Aquele Mustang azul que vendi tinha me trazido até aqui por uma razão. Não era acaso. Era destino.
A educação americana era cara — uma universidade decente custaria entre 40 mil a 60 mil dólares por ano. Isso era impensável. Mas no Brasil, ouvi dizer que as universidades eram acessíveis. Paguei alguns reais por mês. Isso eu poderia fazer.
Só havia um problema: eu mal falava português. Quase nada. Estava em nível de primeira série, e queria entrar em uma faculdade de Direito — um dos cursos mais difíceis do Brasil.
Parecia loucura. Mas eu era um adolescente corajoso (ou inconsciente) demais para perceber que era impossível.
Universidade Toledo
Fomos até a Universidade Toledo e batemos na porta — literalmente. Não tínhamos agendamento, não tínhamos carta de recomendação. Apenas eu, um americano, com coragem e uma visão.
“Qual curso você gostaria de fazer?” perguntaram. “Business ou Direito?”
Eles estavam tentando me direcionar para Business. Sabiam que Direito era praticamente suicida para um nativo falante de inglês com alguns meses no país.
“Direito,” eu disse.
Os coordenadores piscaram. Um deles riu. Não era riso maldoso — era o riso de alguém que viu um menino de 18 anos caminhar para uma montanha com apenas um sapato.
“Você vai precisar passar no vestibular,” disseram.
O Vestibular
O vestibular é a prova de entrada das universidades brasileiras. Não é brincadeira. Tem perguntas de múltipla escolha e uma prova discursiva — uma redação onde você precisa pensar em português, estruturar argumentos em português, e escrever tudo em português perfeito.
Passei semanas estudando. Meus amigos me ajudaram. Eu lia questões de prova anterior em voz alta, aprendia o vocabulário específico. O meu português era ainda muito básico, mas eu estava determinado.
Entrei na sala de exame. Meu coração batia acelerado.
E, de alguma forma, passei. Não foi com uma nota brilhante, mas foi o suficiente. O suficiente para a Universidade Toledo arriscar em um americano.
Entrando na Faculdade
Minha primeira semana foi aterradora. A aula começava às 7h30 da manhã e ia até 11h30. Segunda a sexta. Sem escolher aulas — todo mundo fazia o mesmo cronograma. Todos os alunos do primeiro ano sentavam-se juntos, ouvindo professores de Direito Constitucional, Direito Civil, Direito Penal.
Tudo era em português.
Tudo era difícil.
Eu gravava todas as aulas em um gravador (sim, gravador de cassete — era 1999). Chegava em casa e repassava. Ouvia novamente. Tentava entender. Meu cérebro doía.
Mas algo extraordinário aconteceu: a universidade abraçou o desafio. Não apenas aceitaram que eu era estrangeiro — eles decidiram que isso era uma oportunidade de aprender comigo. De aprender como ensinar um estrangeiro.
Os professores me ajudavam. Alguns permitiam que eu escrevesse em inglês em certas provas, enquanto eu lutava para melhorar meu português escrito. Havia uma biblioteca, e uma senhora idosa lá se tornou minha tutora de português. Sentávamos e ela me ensinava não apenas gramática, mas também como as palavras fluem em português — o masculino, o feminino, as concordâncias que parecem arbitrárias para um falante de inglês.
“Por que ‘carro’ é masculino e ‘mesa’ é feminina?” perguntei uma vez, desesperado.
“Porque é,” ela respondeu com um sorriso. Havia misericórdia naquele sorriso.
O Suporte Que Salvou Tudo
Conheci um professor chamado Sergio que se tornou meu mentor. Ele viu algo em mim — não uma criança perdida, mas alguém com fome de conhecimento. Ele me pressionava. Exigia que eu fosse melhor. Não fazia concessões.
“Você é estrangeiro, mas você está aqui,” disse-me uma vez. “Então você é igual a todo mundo agora. Nenhuma desculpa.”
Aquelas palavras me transformaram.
Para pagar pela universidade — apenas 750 reais por mês, aproximadamente 100 a 160 dólares americanos — eu ensinava inglês. Visitava casas de famílias abastadas em Presidente Prudente, sentava-me em salas, e ensinava seus filhos. Estava ganhando o suficiente para me sustentar e contribuir para a faculdade.
As famílias brasileiras também me ensinavam. Me convidavam para almoços. Me apresentavam a seus amigos. “Este é nosso professor americano,” diziam com orgulho.
Cinco Anos de Luta
Cinco anos se passaram naquele programa. Cada ano, meu português melhorava. Comecei a entender lectures inteiras sem gravar. Depois comecei a fazer anotações em português, não em inglês. Depois comecei a participar em classe.
No terceiro ano, lancei minha própria escola de inglês, ensinando não apenas filhos de famílias, mas grupos. Isso me deu experiência prática de como funciona um negócio no Brasil — como obter clientes, fazer marketing, lidar com a burocracia.
Mas era a faculdade que me consumia. Eu queria ser advogado. Eu queria praticar essa profissão em português, em um tribunal brasileiro, em um país que agora era meu.
Meus colegas que entraram com você na faculdade se formaram. Eu continuei. Algumas aulas tive que repetir porque ainda estava lutando com português técnico. Mas cada repetição era uma oportunidade de me aprofundar.
Os professores não desistiram de mim. A universidade não desistiu. Especialmente porque, enquanto lutava, vi que era possível.
Formação
Minha formatura foi magnífica. No Brasil, a formatura não é uma cerimônia de uma hora em uma quadra coberta. É um evento de três dias. Há festas. Há abraços. Há lágrimas.
Os professores vieram me abraçar. Sergio veio me abraçar. A senhora idosa da biblioteca veio me abraçar.
“Você fez,” disseram-me. “Um americano. Falando português. Jurista.”
A Universidade Toledo, pela primeira vez em sua história, tinha visto um estudante estrangeiro completar um diploma de Direito. Não apenas completar — ter sucesso. Ter passado em todas as aulas.
O Que Aprendi
Hoje, quando vejo imigrantes lutando para aprender português, ou considerando educação no Brasil, eu relembro daquele menino de 18 anos entrando em uma universidade que nunca tinha recebido um estrangeiro. Que não tinha estrutura para isso. Que poderia ter dito “não é possível.”
Mas não disseram não. Disseram “vamos descobrir.”
A educação no Brasil é acessível. Uma faculdade privada de qualidade ainda custava menos que um semestre em qualquer universidade americana. E as universidades públicas? Gratuitas. Competitivas. Rigorosas.
Se você está considerando vir ao Brasil para estudar, ou se está aqui com um diploma estrangeiro e não sabe como validá-lo, a ZS Advogados pode ajudá-lo. Tenho vivido essa jornada. Sei o que é lidar com o sistema educacional brasileiro como estrangeiro. Minha equipe está aqui para ajudar com vistos de estudante, revalidação de diplomas, e todo o aspecto legal de sua educação no Brasil.
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Este artigo tem carater informativo e nao substitui consulta juridica individualizada. Cada caso possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado.
Zachariah Zagol
Advogado — OAB/SP 351.356
Socio fundador do ZS Advogados. Advogado americano inscrito na OAB/SP (351.356) com LL.M. da USC e mais de 15 anos de experiencia no Brasil.
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